Sou batuqueira com muito Orgulho..

03/07/2010 14:34

Mãe Iracema de Xangô 

 

Diz o fundamento: você nunca pode sair de uma festa de batuque antes do eco. Isso significa mais da metade do mesmo.Quantas pessoas vão  a dois três batuques na mesma noite? Acaba que não entram na roda de nenhum, ou muito menos prestam homenagem ou respeito seu próprio orixá muito menos ao orixá da casa. Isso define a modernização negativa de hoje.

Infelizmente sinto pelos jovens que estão se formando em supletivos, e não vão ter os mesmo conteúdos que os antigos tiveram, por que pegam partes resumidas de um preceito, quando falta alguma coisa,criam, muitas vezes errado, por que no conteúdo completo existem coisas que não podem ser simplesmente acrescentadas em rituais que se cultua desde os escravos, pois podem mudar todo o sentido das bênçãos.

 Todo meu conhecimento dentro da religião resultado de muitos batuqueiros que hoje já não vivem entre nós, mas nada disso seria útil em minha vida se eu não o passar adiante.

Como todo batuqueiro atual também tive muitas bandeiras sobre minha cabeça, mas sempre busquei conhecimento e o entendimento de todos os lados que passei, já fui jeje, Ijexá,já fui Cabimda, hoje sigo adiante a ultima bandeira que me amparou: Oyó cultuado por Renati de Iemanjá e Jeje cultuado por Nelson de xangô cônjuge da mesma, ambos já falecidos.

 

Minha casa leva adiante essas duas bandeiras, esses dois lados que se difundiram a muito tempo pela relação que as pessoas antigamente tinha que era de respeito e amizade pelo ritual do outro.

Hoje tenho 54 anos de idade, e poderia dizer que todos eles são de religião, mas conto aos amigos que meu orixá completou este ano 27 anos de apronte, a contar da data que me tornei mãe de santo. Na vida temos muitas experiência, boas ou ruim na verdade não importa, o fator principal de cada filho ou pai de santo dentro da religião é nunca perder a fé, a ela esta ligado seus destinos,suas trajetórias, seus caminhos. Você lembra o por que se tornou batuqueiro? Você sabe o por que quer ser batuqueiro? Você imaginou seu futuro como tal? O segredo do sucesso esta em cada um de nós, na forma que pensamos e lidamos com as situações mais difícil.

 Sou totalmente a favor de novos batuqueiros, e cada vez mais jovens estão iniciando seus rituais, porém precisamos prepará-los, ou fazer que nos escutem quando por modernização ou sem paciência de aprender acabam por denegrir toda uma tradição, hoje temos o auxilio da internet, particularmente atualizei muito dos meus conhecimentos e busco sempre mais, mas não basta só ter o conhecimento sem ter  prática  e saber com quem você esta lidando qual a força a invocar.

 

Quantos sabem o significado de uma roda de batuque, o significado de alguns preceitos, como:  balança e  Alá?

 

Perdeu-se um pouco o motivo pelo qual se vai em um batuque, com isso o fundamento que deveria ser praticado por cada participante é feito pela metade ou nem feito.

 

Acredito no oposto, orixá em sua essência é simples, humilde diante de todos e rei perante a  natureza.

 

O fundamento religioso não consiste desses detalhes, é bom para o ego, faz bem para vaidade própria quando se tem condições, mas não vai ser fator predominante  perante ao orixá para dar sua bênçãos!

 

Tudo isso para evitar que se falem mau da festa proposta aos orixás que acaba virando vitrine de pessoas mesquinhas.

 

Nosso batuque hoje no RS é considerado o ritual mais caro diante de outros estados praticantes da religião Afro, atualmente acabamos nos preocupando muito com a imagem dos pais de santo ou não nas festas, e com isso começamos a investir mais em decoração, comidas, roupas, acabamos por reformar o terreiro todo para maior acomodação dos visitantes.

 

Hoje poucos fazem isso, e na verdade ainda sou da época em que se tocava muitas vezes um mês completo decorrente da  obrigações.

 

Os mais antigos cultuavam tocar sempre dois batuques, o primeiro era relativo a obrigação maior, ou seja o corte aos orixás dos filhos em obrigação, e a festa seguia com obrigação arriada. O segundo era chamado batuque de praia, ou do peixe, por que já haviam sido levantado as obrigações do primeiro, porém na mesma semana cortava se a confirmação para todos os orixás que fizeram obrigação, em seguida o peixe, passeio e assim chegava a festa.

 

Na época em que me aprontei não era costume apresentar axés de faca e búzios no meio do salão para todos verem, na verdade os batuques eram tocados em meio as obrigações, por isso não havia nem como apresentar nada.

 

Minha vida sempre foi um livro aberto, ou seja nunca precisei mentir para me valer da confiança de um filho ou cliente, o que sei digo que sei, o que não sei digo que vamos descobrir juntos.

 

por isso digo: Sou Batuqueira com muito orgulho.

Axé para todos!

 Mãe Iracema de Xangô Agodô Bamboxé.

 

Fui criada na religião, minha primeira obrigação de pelos, foi quando eu tinha 8 meses de vida, os orixás me salvaram da morte, sou filha carnal de batuqueiros, toda minha vida foi ligada a religião, nunca conheci outro caminho, minha educação é religiosa, e muito dos rituais que aprendi, foi  vendo pessoas velhas fazerem na minha frente.

Pai Henrique de oxum foi minha primeira bandeira, ele era pai de santo de minha mãe carnal, seu primeiro terreiro foi dentro de minha casa apesar de ser muito nova na época aos preceitos dele devo minha vida até hoje. Conheci através de minha mãe batuqueiros da antiga bacia do Mont. Serrat, negros e negras oriundos da própria África.